Educação Popular
Fernanda Paulo
São Educadores - as, cuja maioria é, mulheres e negras, que recebem baixos salários, para desenvolver um trabalho de educação popular na periferia da cidade. Baseado nesta realidade, vale trazer o fayo de que historicamente a mulher esteve associada aos valores “Domésticos”, se responsabilizando por tarefas do lar, como cuidar dos filhos, mais tarde passou a cuidar dos filhos das mulheres ricas, e posteriormente foram intituladas a “tias”.
Na escravidão as mulheres negras, tornavam-se objetos na prestação de serviços, como “amas-de-leite”, alimentando os filhos brancos da elite, enquanto seus filhos e filhas cuidavam dos afazeres domésticos, trabalhavam na roça, entre outros tantos serviços.
Atualmente, a maioria das mulheres negras, está na condição de mantenedora da família, ou trabalhando como empregada doméstica, faxineira, ou em um nível mais “elevado”: agora, são as “tias” de creches comunitárias. Ou seja, ainda servindo um trabalho de herança escravista.
Assim, a concorrência o mercado de trabalho é profundamente desigual, fato também, da cultura machista que sobre as mulheres, em especial, as negras, prevalecem ainda maior.
As mulheres das classes populares, em especial, as mulheres negras, sofreram e infelizmente atualmente sofrem com as muitas discriminações, entre estas a discriminação pela intelectualidade, pela pobreza e pela etnia.
Com baixos salários, baixa escolaridades, pobre, são as maiorias elas, educadoras populares, as tias, negras, que prestam serviços em instituições comunitárias, confessional, ou beneficente
Desta forma, negar a figura da educadora popular, identificando não como professora, mas como tia, não é ter menor amor, carinho pelos educandos-as, e não são desprezo e desvalorização da figura de tia, a meu ver é negar a identidade, a valorização da educadora que desempenha um trabalho de cunho importante na história da educação popular. Identificar a educadora popular com tia, o que historicamente foi enfatizado, é advogar-las como tias boas, babás, e pior, não devem rebelar-se, não devem fazer greve e nem lutar por seus direitos. [1]
“A tarefa de ensinar é uma tarefa profissional que, no entanto, exige amorosidade, criatividade, competência científica, mas recusa a estreiteza cientificista, que exige a capacidade de brigar pela liberdade sem a qual a própria tarefa fenece”. (Paulo Freire)²
A continuar Freire fala dos diferentes papeis da Profissão Professor (a) em diferentes classes sociais, perceba que é urgente e necessário refazer a história de quem é profissional importante neste processo de democratização de acesso.
“O que me parece necessário na tentativa de compreensão crítica do enunciado professora, sim; tia, não, se não é opor a professora à tia não é também identificá-las ou reduzir a professora à condição de tia. A professora pode ter sobrinhos e por isso é tia da mesma forma que qualquer tia pode ensinar, pode ser professora, por isso, trabalhar com alunos. Isto não significa, porém, que a tarefa de ensinar transforme a professora em tia de seus alunos da mesma forma como uma tia qualquer não se converte em professora de seus sobrinhos só por ser tia deles. Ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão enquanto não se é tia por profissão. Se pode ser tio ou tia geograficamente ou afetivamente distante dos sobrinhos, mas não se pode ser autenticamente professora, mesmo num trabalho a longa distância, “longe” dos alunos”. ³
Assim é importante ressaltar e valorizar as educadoras populares tendo a consciência de que a educadora popular ou professora tem um papel importante na construção de uma sociedade mais justa, solidária e democrática, e por isto mesmo tem um papel político e social, assim ela não é tia. Não é aceitável e impossível ser educadora popular, sem lutar por seus direitos, desconhecendo as implicações escondidas ideológica política que envolve a redução da condição de professora à de tia.
²-Paulo Freire: Professora, sim; tia, não-cartas a quem ousa ensinar 1997
³- Esta análise do mote “professora-tia” é mais um capítulo da luta contra a tendência à desvalorização profissional representada pelo hábito, que se cristaliza há cerca de três décadas, de transformar a professora num parente postiço. Dentre as discussões levadas a efeito sobre esta questão destaco o sério trabalho Professora Primaria – mestra ou tia, de Maria Eliana Novaes (Cortez Editora, 1984).
Se não é aceitável e impossível ser educadora popular, sem lutar por seus direitos, conto agora um pouco a história de um dos movimentos populares de luta e resistência, contra tais preconceitos, em busca de libertarem-se da posição de opressão, lutando pelos seus direitos e sonhos.
Do ponto de vista histórico, é importante destacar e lembrar que contamos com importantes avanços, assim como as políticas de cotas, e a AEPPA***.
A AEPPA (Associação dos Educadores Populares de Porto Alegre) que lutou e permanece na luta e na busca intensa pela necessidade da formação, nível médio e superior, traçarando o percurso de tranaform,ação possível, que carrega a bandeira da qualificação e valorização das educadoras de Porto Alegre. È neste movimento comunitário, que educadoras e educadores buscam a qualificação, o direito de uma remuneração digna e o enfrentamento das situações de exclusão social, produzida pela violação dos seus direitos e pelo preconceito histórico.
Tendo em vista que educadora popular é professora não é tia, é importante que se invista na qualificação dos cursos de licenciaturas, em especial, o curso de pedagogia, que deverá ter uma proposta metodologia a pesquisa-ação, na qual se pense e re-pense, pesquise a questão da mulher, a identidade da mulher negra, em uma metodologia interdisciplinar, com uma educação popular.
O perfil destas educadoras é objetivo e a razão pela busca por formação, por serem tituladas a “tias” e não educadoras, se faz urgente e necessário políticas de valorização destas profissionais que estão nas instituições comunitárias de Porto Alegre. É importante destacar que esta luta é destaque na capital gaúcha, pois a mobilização das educadoras populares pesquisaram, participaram no orçamento participativo,bem como nos diferentes espaços do movimento social. sonharam, desanimaram-se, mas nunca desistiram, porque são a maioria: mulheres, oriundas da classe popular e a maioria negras, fortes e guerreiras, que estão sendo autoras e atrizes de suas próprias histórias.
[1] ¹Referência do artigo da vereadora Sofia Cavedon: “Eles são quase dois mil, atuam diretamente na educação, proteção e cuidado de mais de cinqüenta mil crianças, adolescentes, jovens e adultos da rede comunitária de nossa cidade. São, na sua maioria, mulheres e negras, recebem baixos salários e vêm há mais de uma década construindo, ampliando e qualificando, ao lado de suas instituições, convênios da sociedade civil com a prefeitura: Creches Comunitárias, Trabalho Educativo para Jovens, Serviço de Apoio Sócio Educativo (Extra Classe), Abrigos e Casas de Passagem e Movimento de Alfabetização de Adultos”.
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