sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Educação Popular em Porto Alegre e as mulheres negras

Fernanda Paulo

Em Porto Alegre há mais duas mil educadoras e educadores populares, atuando na educação infantil, em programas de apoio sócio-educativo e educação de jovens e adultos, em instituições mantidas e administradas por associações dos Movimentos Sociais Comunitários, contemplando o papel que é do Estado. ¹
São Educadores - as, cuja maioria é, mulheres e negras, que recebem baixos salários, para desenvolver um trabalho de educação popular na periferia da cidade. Baseado nesta realidade, vale trazer o fayo de que historicamente a mulher esteve associada aos valores “Domésticos”, se responsabilizando por tarefas do lar, como cuidar dos filhos, mais tarde passou a cuidar dos filhos das mulheres ricas, e posteriormente foram intituladas a “tias”.

Na escravidão as mulheres negras, tornavam-se objetos na prestação de serviços, como “amas-de-leite”, alimentando os filhos brancos da elite, enquanto seus filhos e filhas cuidavam dos afazeres domésticos, trabalhavam na roça, entre outros tantos serviços.

Atualmente, a maioria das mulheres negras, está na condição de mantenedora da família, ou trabalhando como empregada doméstica, faxineira, ou em um nível mais “elevado”: agora, são as “tias” de creches comunitárias. Ou seja, ainda servindo um trabalho de herança escravista.

Assim, a concorrência o mercado de trabalho é profundamente desigual, fato também, da cultura machista que sobre as mulheres, em especial, as negras, prevalecem ainda maior.
As mulheres das classes populares, em especial, as mulheres negras, sofreram e infelizmente atualmente sofrem com as muitas discriminações, entre estas a discriminação pela intelectualidade, pela pobreza e pela etnia.

Com baixos salários, baixa escolaridades, pobre, são as maiorias elas, educadoras populares, as tias, negras, que prestam serviços em instituições comunitárias, confessional, ou beneficente em Porto Alegre, inserida no mercado da educação informal, desvalorizadas pelo significante trabalho que prestam à sociedade.( Ver referência: Sofia Cavedon)

Desta forma, negar a figura da educadora popular, identificando não como professora, mas como tia, não é ter menor amor, carinho pelos educandos-as, e não são desprezo e desvalorização da figura de tia, a meu ver é negar a identidade, a valorização da educadora que desempenha um trabalho de cunho importante na história da educação popular. Identificar a educadora popular com tia, o que historicamente foi enfatizado, é advogar-las como tias boas, babás, e pior, não devem rebelar-se, não devem fazer greve e nem lutar por seus direitos. [1]

O educador, Paulo Freire em seu livro: Professora, sim; tia, não, retrata neste livro que é importante refletir e discutir o significado de cada neste livro as expressões: tia e professora/educadora, compreendendo o que as educadoras populares ganham ou perdem, individualmente e coletivamente enquanto neste contexto histórico.Neste contexto coinvido a cada leitor(a) a ler o que Freire escreveu e a partir destes escritos refletir sobre:

“A tarefa de ensinar é uma tarefa profissional que, no entanto, exige amorosidade, criatividade, competência científica, mas recusa a estreiteza cientificista, que exige a capacidade de brigar pela liberdade sem a qual a própria tarefa fenece”. (Paulo Freire)²

A continuar Freire fala dos diferentes papeis da Profissão Professor (a) em diferentes classes sociais, perceba que é urgente e necessário refazer a história de quem é profissional importante neste processo de democratização de acesso.

“O que me parece necessário na tentativa de compreensão crítica do enunciado professora, sim; tia, não, se não é opor a professora à tia não é também identificá-las ou reduzir a professora à condição de tia. A professora pode ter sobrinhos e por isso é tia da mesma forma que qualquer tia pode ensinar, pode ser professora, por isso, trabalhar com alunos. Isto não significa, porém, que a tarefa de ensinar transforme a professora em tia de seus alunos da mesma forma como uma tia qualquer não se converte em professora de seus sobrinhos só por ser tia deles. Ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão enquanto não se é tia por profissão. Se pode ser tio ou tia geograficamente ou afetivamente distante dos sobrinhos, mas não se pode ser autenticamente professora, mesmo num trabalho a longa distância, “longe” dos alunos”. ³

Assim é importante ressaltar e valorizar as educadoras populares tendo a consciência de que a educadora popular ou professora tem um papel importante na construção de uma sociedade mais justa, solidária e democrática, e por isto mesmo tem um papel político e social, assim ela não é tia. Não é aceitável e impossível ser educadora popular, sem lutar por seus direitos, desconhecendo as implicações escondidas ideológica política que envolve a redução da condição de professora à de tia.


²-Paulo Freire: Professora, sim; tia, não-cartas a quem ousa ensinar 1997

³- Esta análise do mote “professora-tia” é mais um capítulo da luta contra a tendência à desvalorização profissional representada pelo hábito, que se cristaliza há cerca de três décadas, de transformar a professora num parente postiço. Dentre as discussões levadas a efeito sobre esta questão destaco o sério trabalho Professora Primaria – mestra ou tia, de Maria Eliana Novaes (Cortez Editora, 1984).

Se não é aceitável e impossível ser educadora popular, sem lutar por seus direitos, conto agora um pouco a história de um dos movimentos populares de luta e resistência, contra tais preconceitos, em busca de libertarem-se da posição de opressão, lutando pelos seus direitos e sonhos.

Do ponto de vista histórico, é importante destacar e lembrar que contamos com importantes avanços, assim como as políticas de cotas, e a AEPPA***.

A AEPPA (Associação dos Educadores Populares de Porto Alegre) que lutou e permanece na luta e na busca intensa pela necessidade da formação, nível médio e superior, traçarando o percurso de tranaform,ação possível, que carrega a bandeira da qualificação e valorização das educadoras de Porto Alegre. È neste movimento comunitário, que educadoras e educadores buscam a qualificação, o direito de uma remuneração digna e o enfrentamento das situações de exclusão social, produzida pela violação dos seus direitos e pelo preconceito histórico.

Tendo em vista que educadora popular é professora não é tia, é importante que se invista na qualificação dos cursos de licenciaturas, em especial, o curso de pedagogia, que deverá ter uma proposta metodologia a pesquisa-ação, na qual se pense e re-pense, pesquise a questão da mulher, a identidade da mulher negra, em uma metodologia interdisciplinar, com uma educação popular.

O perfil destas educadoras é objetivo e a razão pela busca por formação, por serem tituladas a “tias” e não educadoras, se faz urgente e necessário políticas de valorização destas profissionais que estão nas instituições comunitárias de Porto Alegre. É importante destacar que esta luta é destaque na capital gaúcha, pois a mobilização das educadoras populares pesquisaram, participaram no orçamento participativo,bem como nos diferentes espaços do movimento social. sonharam, desanimaram-se, mas nunca desistiram, porque são a maioria: mulheres, oriundas da classe popular e a maioria negras, fortes e guerreiras, que estão sendo autoras e atrizes de suas próprias histórias.



[1] ¹Referência do artigo da vereadora Sofia Cavedon: “Eles são quase dois mil, atuam diretamente na educação, proteção e cuidado de mais de cinqüenta mil crianças, adolescentes, jovens e adultos da rede comunitária de nossa cidade. São, na sua maioria, mulheres e negras, recebem baixos salários e vêm há mais de uma década construindo, ampliando e qualificando, ao lado de suas instituições, convênios da sociedade civil com a prefeitura: Creches Comunitárias, Trabalho Educativo para Jovens, Serviço de Apoio Sócio Educativo (Extra Classe), Abrigos e Casas de Passagem e Movimento de Alfabetização de Adultos”.

Nenhum comentário: