sábado, 15 de agosto de 2009

Formação de Educadoras (es) Populares de Porto Alegre: trajetória e desafios

Fernanda Paulo


RESUMO
O presente artigo tem sua origem no desejo da autora em pesquisar os processos de formação inicial de um grupo de educadoras, na gênese na Educação Popular, visando contribuir através do estudo e análise, o fortalecimento e concretização dos fundamentos teóricos, éticos, políticos e filosóficos que embasam a educação popular no Brasil nos cursos de formação docente quanto à formação das (os) educadoras (es) populares de Porto Alegre em nível superior. Para tanto, aborda-se os conceitos de Educação Popular, desvelando os anseios, desejos, realizações e esperanças ao lado da historicidade e intencionalidade de um movimento organizado chamado AEPPA (Associação de Educadores Populares de Porto Alegre). Realizou-se observação participante e pesquisa semi-estruturada com doze educadoras populares que responderam questões, referente às suas instituições acadêmicas, quanto aos seus respectivos currículos e a respeito do perfil das professoras que trabalhavam (se trabalhavam) disciplinas que contemplavam a educação popular, bem como questões a respeito de suas experiências. Assim, as trajetórias e desafios das trabalhadoras(educadoras) em educação popular no contexto das instituições comunitárias, da capital gaúcha, será objeto de analise, avaliação e discussão sobre os aspectos positivos e negativos referente à formação acadêmica das educadoras populares.

Palavras-chaves: Educação Popular - Formação - Currículo – Desafios
Introdução
Este artigo é uma possibilidade de diálogo com a educação popular e seus agentes sociais a partir de um estudo com educadoras (es) que desenvolvem atividades em educação popular em Porto Alegre há bastante tempo, e que só após alguns anos, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96 que um grupo de educadoras (es) através da organização de uma associação de educadores em Porto Alegre, buscou por formação em nível médio com o curso de magistério (normal) e posteriormente a formação em nível superior nos princípios da educação popular, onde essa busca deu-se por meio de uma luta de classe: Educadores (as) x governo municipal.
Foi, portanto, a partir da historicidade da associação que surgiu o questionamento: “Será que a educação superior está dando as ferramentas necessárias à formação do (a) pedagogo (a) popular para atuar nos processos educacionais e sociais em Porto Alegre?” Este questionamento foi o embasador deste trabalho inicial.
Nos últimos anos vive-se um momento histórico de emancipação das classes populares a partir da organização de um movimento social chamado AEPPA (Associação de Educadores Populares de Porto Alegre) onde o educador (a) se constitui pesquisador (a) de um novo desafio – formação acadêmica contextualizada a realidade de trabalho da educação popular.
Como alternativa a esse desafio, grupos de educadoras (es) passaram a escrever que cursos de Pedagogia necessitavam para qualificar suas práticas de trabalho. Um dos resultados mais significativos deste movimento foi o curso de Pedagogia da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) que teve em seu currículo a ênfase na educação popular. Anos depois, surgiu com a AEPPA o curso de Pedagogia da PUC, que sua nomenclatura é Pedagogia com ênfase na Educação Popular.
Desta forma, pretende-se discutir e estudar a formação acadêmica de educadores (as) populares, formados em Pedagogia em diferentes instituições que tem parcerias com a AEPPA, assim como fazer uma análise e ao mesmo tempo buscar resposta a seguinte indagação: em que medida a formação superior dá embasamento a prática pedagógica na educação popular.
A partir deste questionamento deu-se início a escuta, observação e conversas com educadoras populares que já estão graduadas e que buscam através da formação o seu reconhecimento profissional. A protagonista desta caminhada é a organização da associação que se criou como alternativa de mudança responsável, autônoma e crítica através da formação permanente das (es) educadoras (es) que desenvolvem atividades educativas nas instituições comunitárias da capital gaúcha.
Assim, o objetivo deste trabalho configura-se em um convite ao conhecimento sobre a história de doze educadoras populares da cidade de Porto Alegre e suas alternativas de mudança de vida através da palavra “FORMAÇÃO”. Ao lado dos relatos individuais, há também o relato coletivo do grupo de educadoras que se desvela como caminho de descoberta, reflexão, construção, desafios e curiosidade epistemológica da trajetória prática e teórica da AEPPA , constatados em documentos, como atas, registros e relatórios de reuniões institucionais desta Associação.
A formação de Educadoras (es) Populares, entendida aqui como uma experiência sócio-histórica e política tem, também, suas dimensões, históricas, estética, éticas e filosóficas, não sendo neutras, porque “Mudar a cara” da Educação Popular tem sido uma caminhada difícil, mas possível a partir de um olhar crítico e contextualizado das (os) agentes sociais que protagonizam essa caminhada. Estas (es) educadoras (es) buscam firmar suas identidades profissional e consequentemente sua valorização.
É importante destacar que até a década passada às educadoras de Porto Alegre, eram nomeadas como TIAS (educadoras populares) por estarem na condição de pessoas leigas para o trabalho que exerciam, na educação social.
Assim, a formação permanente, que vai muito além do que a busca por uma remuneração digna, permeia-se também, por questões referentes à valorização destas profissionais enquanto categoria.
Desta forma, a caminhada percorrida norteia-se na luta por formação docente como formação permanente, consciente de seus direitos, emancipadora, significativa e histórica. No bojo da sociedade onde os ideais da educação têm sido descaracterizados, as palavras “Participação” e “Organização”, têm sido marcas de quem é educadora (or) popular.
É na associação - AEPPA, onde busca-se ideais coletivos, em que as atividades grupais de busca significam processos, resgates, lutas, utopias, perseveranças, esperanças e movimentos de construções de mudanças ousadas que Segundo Freire(1991) mudar:
Numa perspectiva realmente progressista, democrática e não – autoritária, não se muda a ‘cara’ da escola por portaria. Não se decreta que, de hoje em diante, a escola será competente, séria e alegre. Não se democratiza a escola autoritariamente.

Assim, outro aspecto relevante às questões referentes à formação permanente, que estão além de uma remuneração digna, permeia-se também, por questões referentes à valorização destas profissionais enquanto categoria – educadores (as) pesquisadores (as) que superaram o problema de falta de formação através de alternativas de transformação da educação como parte de um projeto social e escrito por quem viveu (ainda vive) na situação de oprimida (o) , e que por isto mesmo, superam a cada participação , o idealismo educacional atual, procurando entender, estudar e pesquisar o real objetivo das(os) educadoras(es) populares de Porto Alegre, tomando como princípio desta descoberta a dialética como um instrumento de compreensão da realidade de quem faz a Educação Popular.
É nesse sentido, que as (os) educadoras (es) populares de Porto Alegre têm o processo de auto - conhecimento , diário e contínuo, pois nada é dado como acabado / pronto a eles/elas, estando tudo em movimento, ou seja, em um projeto de construção permanente de quem são os (as) educadores (as) dentro da cidade de Porto Alegre e qual são suas respectivas funções nesta sociedade neoliberal.
Este desafio inacabado, em que as (os) educadoras (es) vão se formando juntamente com suas relações sociais, a procura de novos saberes e a partir da trocas dos saberes feitos, é resultado da realidade contextual da educação social em que nada está pronto, e sim, em projeção, em fase de descoberta de em um mundo que tudo está em mudanças constantes. Em vista disto, verificar o avanço qualitativo da formação acadêmica das educadoras que tiveram sua formação em Pedagogia se fez necessário escutar, observar e conversar para obter possíveis respostas do estudo a qual me propus realizar.
Analisar, avaliar e entender os diferentes currículos dos cursos de pedagogia seria uma tarefa de prioridade para este trabalho, contudo a sua complexidade somado com tempo disponível inicial que tive não pude concluir todos os meus objetivos para este trabalho, mas com os resultados que coletei proponho desenhar alternativas que possam contribuir para qualificar os cursos de graduação, buscando contemplar a educação popular nos currículos dos cursos superiores em Pedagogia.

2. Novos desafios, pesquisas e construções.
O fruto da história da educação popular é de uma sociedade opressora em que os cidadãos (as) não puderam discordar, refletir e tomar decisões acerca de tudo aquilo que os/as afetava, ou seja lhes foi negado o direito de "pronunciar" as suas palavras, como diz Freire. Mas, ainda que as educadoras fossem tratadas como coisas e objetos (e não como pessoas que educam e são educadas, sujeitas da educação), tal silêncio não permaneceu por muito tempo. Este silêncio aparente, que ao dizer a palavra, o re-conhecimento deste silêncio foi processo importante para se chegar à constituição de uma associação.
Homens e mulheres que educam e são educadas, através de um movimento coletivo, puderam expressar-se livremente dizendo sua palavra, falar sobre o que pensavam dos seus trabalhos, seus anseios, desejos e a forma como queriam organizar-se para transformar tal realidade. A mudança iniciou-se com a participação popular, em que o “desvelar” a realidade ia tornando-se um ato curioso, pois o lutar por direito ao trabalho com dignidade e formação foi um momento de conhecimento daquilo que não se enxergava.
O “espírito investigador” que movimentava aquele grupo de educadoras (es) estimulava a curiosidade para conhecer ao fundo o sentido das coisas. Estudar as “coisas”, porque naquele período, tudo era “coisa”, pois não se tinha o conhecimento cientifico das nomenclaturas que norteavam a educação brasileira. O desejo de aprofundar as curiosidades e as idéias do contexto, estudando leis, pareceres e documentos afins, foi sem sombra de dúvida, desafio epistemológico.
Algumas questões encontram-se em aberto, pois em um movimento de construção daquilo que se foi negado como direito as(os) educadoras(es) populares de Porto Alegre, o inédito viável , tem estado presente no cotidiano das ações destas(es) educadoras(es) sociais, e, no entanto contextualizar a educação popular no âmbito acadêmico torna-se desafio constante de estudo e questionamento sobre a importância da temática.
A cada vivência nos movimentos populares surgem questionamentos que resultam em uma visão histórica e social da história da educação brasileira. As situações – limites da realidade das instituições comunitárias que as educadoras e educadores desenvolvem suas atividades é desafio na busca permanente por formação.
A participação do grupo de educadoras aqui pesquisadas é heterogêneo, e todas vivenciam da mesma realidade profissional, brigam e lutam por novos desafios, buscando a conquista da sua emancipação enquanto educadoras populares, com formação e condições digna de trabalho para a sua saúde pessoal e profissional.
É assim, que a pesquisa e a construção estão relacionadas ao diálogo, que é “o encontro dos homens (mulheres também) mediatizados pelo mundo para dar um nome ao mundo”( FREIRE, 1970, pág.45). Somada a está participação neste diálogo investigador de descobertas essas educadoras demonstram estar engajadas politicamente nos seus fazeres pedagógicos e sociais.
Essas relações de participação têm possibilitado a construção de uma identidade sócio-cultural das educadoras por meio de estudos, pesquisas e movimento intenso de reivindicação. Essa caminhada de descobertas está se relacionada à AEPPA, enquanto movimento social de origem popular que briga por acesso aos bens e direitos de educadores (as) populares.
Foi através de pesquisas, descobertas e estudos que a associação se descobriu produtora de conhecimento. A primeira vez que as educadoras se enxergaram amparadas por alguma lei foi em 1996, onde ela se fortaleceu para lutar pelos seus direitos. Essa descoberta de direitos foi desvelada por meio de uma noticia no jornal, cujo destaque dava-se ao Art. 62 da LDBN:
A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal.

É a partir desta noticia que se dá a da AEPPA, onde educadoras se vêem na urgência de garantir formação continuada as (os) educadoras (es) de Porto Alegre, pois as instituições comunitárias de educação social – popular, no corrente ano (1996), ainda contavam com educadoras populares sem o acesso ao nível de formação mínima concluída, o magistério – modalidade Normal. Foi com o movimento de descoberta de direitos, que Freire chamava de “Consciência crítica”. Para Freire, “a consciência crítica é o conhecimento que consegue desocultar” certas definições que explicam a maneira como são organizadas as estruturas sociais. A consciência do direito desvelou a realidade daquele momento, conduzindo as educadoras e educadores a lutarem e fundamentarem-se na criatividade, reflexão e a ação sobre a realidade das instituições comunitárias de Porto Alegre. Segundo uma das educadoras ouvidas, “o objetivo era promover a transformação” .
É a consciência que “inquietou” pela causalidade de descobrir possibilidades em que as educadoras (es) se conhecem como sujeitas de direitos garantido por lei e com isto passam a dedicar-se a construir mecanismos de formação participativa de grupos de pesquisa que lutam pela ação democratizadora e humana na busca por formação permanente em educação popular.
A educação neoliberal, aquela que é pragmática e centra-se em uma educação técnica, de puro treinamento, se reduzindo a transferência de conteúdos em que não existe possibilidade de mudança, visa a “Mercantilização da Educação ”, que vem de encontro à educação popular que se deseja em Porto Alegre. É contra este modelo de educação que a AEPPA luta, pois na associação o pressuposto de uma proposta de trabalho reflexivo é aquele que incentiva a pesquisa a partir da importância da formação do (a) educador (a) popular para uma atuação crítica e participativa na transformação da realidade do contexto social de uma sociedade desigual como a qual vivemos. Para este trabalho, o “diálogo é uma exigência existencial” ( FREIRE, 1970, pág.45) para o processo de construção de uma educação problematizadora.
3. Diálogo com a Educação Popular e Educação Universitária
O grupo de educadoras populares que participaram da pesquisa conceituou com uma palavra o que é a educação popular a partir de suas experiências, onde apontam palavras significativas na ação pedagógica que pode ser visualizada no quadro a seguir:

Conhecimento Inclusão
Cidadania
Diversidade
Transformação
Emancipação
Realização
Revolução

Conhecimento Desejo Compromisso social Inclusão

Paulo Freire , diz que: “Ensinar exige comprometimento”, que vem ao encontro do comprometimento com a formação permanente que as educadoras já graduadas disseram ter buscado na formação acadêmica. Para elas, que ensinam e consideram-se “eternas aprendentes”, as palavras demonstradas no quadro acima que conceitua a educação popular expressa o quanto torna-se importante essa abordagem como componente curricular dos cursos de pedagogia.
Nesse sentido, a presença política de um educador (a) popular deve ser levada e consideração no que se refere à formação de pedagogas (os) na sociedade atual.
A presença concreta de quem tem opções por uma educação libertadora e que ousa desvelar novos conhecimentos, tendo a capacidade de analisar, comparar, estudar, avaliar, decidir e de romper com paradigmas que contrapõe com o sonho de uma educação popular é percebida na fala e gestos das pesquisadas. A autonomia, a ética e a responsabilidade foram possíveis de perceber com os relatos, assim como foi possível sentir e comprovar a questão de pertencimento quando se conhece a historicidade do Movimento Popular que as/os educadoras/es sociais comprometeram-se trilhar. Estas educadoras demonstraram fazer e ser parte do movimento, destacando que as doze educadoras acreditem que a AEPPA precisa qualificar seus processos gestionários dando ênfase à gestão democrática. A partir dessa análise crítica elas dizem que o compromisso de mudança é de todas educadoras e educadores, pois “há um grupo de educadores que estão formados e este grupo deve estar junto nesse processo de mudança”. (fala de uma educadora, 2008). Nesse sentido, mudar dá- se a cada dia a partir das práticas reflexivas das (os) educadoras (es) que estudam e praticam a educação popular.
Nesse momento perguntei ao grupo de educadoras porque a questão da gestão na AEPPA surgiu na nossa roda de conversas?
Uma educadora respondeu: “A gestão é parte da pedagogia, a AEPPA é parte da formação, tudo é educação”, logo a outra educadora colocou “isto é currículo!”, todas do grupo concordaram e contribuíram na reflexão conjunta sobre a Pedagogia na educação popular. Essa prática de fazer relações em uma inserção crítica a partir das experiências cotidianas instrumentalizava o grupo a pensar os seus cursos de Pedagogia. Esse é, de fato, um processo revolucionário, pois os fazeres vem do povo (educadoras), do diálogo, do refletir, do questionar e do desejar.
Assim, a formação político-pedagógica das/os educadoras/es populares tem um referencial voltado à educação popular, que orienta a proposta ora supracitada, mas que vai além desta, porque objetiva intervir e transformar a realidade de seus trabalhos através da formação permanente e contextualizada. Assim, deseja-se romper com a “educação bancária” que Paulo Freire(1970) tanto questionou, principalmente para tomar o cuidado de não reproduzir o que se tem pronto, mas que seja possível ousar a criação, assumindo um compromisso com a transformação social. Desta forma, a educação popular e educação pública são fatores de suma importância para um currículo inovador e indissociável da realidade local e global oriundo de um pressuposto emancipador. Estes componentes curriculares devem ser inovadores, ousados e que rompam com a “ cultura do silêncio”, sendo necessário, entender que o contexto teórico e prático seja reflexivo de uma ação consciente , conforme diz Tomaz Tadeu da Silva :
Currículo é lugar, espaço, território, é relação de poder, é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo se forja a nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade (SILVA, 2003, p. 150)

É necessário, assim, pensar Educação Universitária como um todo, e que seja ela pública e de qualidade, inovadora e como diz Paulo Freire (1997, pág. 27-38), que seja “uma escola democrática e popular” , no entanto que seja ela um convite à transformação, que convoque a Universidade como um todo a engajar-se na mesma luta por uma educação de qualidade, democrática, participativa e popular. Alguns desses caminhos as educadoras/es populares da capital gaúcha já caminharam com curiosidade, sensibilidade, emoção, ousadia e criatividade. A trajetória tem tido seu êxito por ter sido construída de forma participativa, onde procura-se socializar o conhecimento experimental da prática em educação popular e suas manifestações culturais para serem teorizadas na formação acadêmica. É este o momento de pesquisa da própria prática onde todos/as desejam pesquisar e ser pesquisado, conhecer o outro, conhecer-se, avaliar-se e avaliar suas práticas, bem como sonhar buscando alcançar mecanismos libertadores para alcançar esses objetivos.
Pode-se dizer que a luta e o anseio dos/as educadores/as populares, vista como educadoras/es leigas, por formação diferenciada e referenciada nos pressupostos da educação popular é resultado da necessidade de cursos no nível da educação básica e superior, voltada ao compromisso social à demanda das instituições comunitárias de Porto Alegre.

3.1. Estudo e curiosidade como intervenção nas políticas públicas

A democracia, percebida na participação das educadoras populares e educadores através de uma associação é fruto de uma demanda de Porto Alegre, que a partir desta, a organização se dá de forma direta, ou seja, o poder é oriundo do povo e pelo mesmo é exercido diretamente. Este povo, aqui são as mulheres e homens que um certo dia, cansadas/os de tanta opressão, tomam a liberdade a partir da suas realidades, de fazer as suas ações culturais – ler e escrever a sua realidade com criticidade. Para Freire, a ação cultural para a liberdade tem sua caracterização pelo diálogo reflexivo e pelos esforços participativos de indignar-se com a cultura dominante/pronta que lhes é dada como única opção.
Nesta perspectiva, a AEPPA ( Associação de Educadores Populares de Porto Alegre) além de ser fruto da organização popular é um instrumento de luta pela garantia e efetivação da qualificação dos/as profissionais que atuam na educação infantil, nos programas de apoio sócio-educativo e na educação de Jovens e adultos.
Assim, mulheres e homens, como sujeitos histórico-sociais tornam-se capazes de intervir e romper com a realidade excludente a qual estão situadas/os, e que se percebem educadoras/es sem medo de tentar, criar e fazer. O medo de enfrentar a realidade é aquele que o opressor coloca ao oprimido explanando, a ele que a este não é permitido o poder de criar, inventar, transformar, ousar e ser.
O medo é oriundo da opressão, ou seja, da pedagogia dos dominantes, onde se fundamenta em uma prática voltada a uma concepção bancária de educação em que é negado qualquer tipo de contradição ao modelo oferecido como única alternativa possível de vir a ser. Sabe-se que em uma sociedade capitalista, o vir a ser está relacionada à educação exercida como uma prática de dominação, e com o desejo do opressor contra as classes populares, pois as elites nas sociedades industriais desejam deter o conhecimento técnico, político e intelectual como mudança possível a partir do saber de uma minoria. É, nesse sentido elitista, que há favorecimento a poucos o acesso à universidade, e foi por isto que a AEPPA surgiu, reivindicando o acesso à educação, sem medo, como direito a qualidade de seus serviços.
Conforme, FREIRE, 1997, pág.27 que nos diz que quando algo é difícil “há sempre uma relação entre medo e esta dificuldade”, onde nesta relação entre os/as sujeitos/as que temem a situação de opressão ou quando se soma ao “objeto do medo (...) que é o sentimento de insegurança”, a caminhada em busca do que é sonho possível é mais longa, porque existe toda uma política organizada voltada para a “Mercantilização da Educação ”. Desta forma, esta realidade é hoje mobilização, bem como instrumento de ir à luta e de fazer história com ética e cidadania, pois para a educação popular é inaceitável que a educação seja voltada para o mercado e que o/a educador/a não se engaje contra esta visão neoliberal de escola onde os seus valores assumem um papel hegemônico e reprodutor.
É dessa opressão, também, que as educadoras e educadores populares da capital gaúcha lutam contra, pois a insegurança e medo que os opressores tentam reprimi-las para enfrentar as dificuldades profissionais, bem como a realidade educacional são hoje objetos de movimento de luta por direito de ser exercer com melhor qualidade profissional as suas funções.
Assim como de fazer um movimento social com características voltadas à educação cidadã para a emancipação com o resgate de valores participativos, que vão permear pela democracia, solidariedade, cooperação mútua, liberdade, igualdade de direitos, identidade heterogênea, cidadania plena, participação efetiva e amorosidade.
A educação popular para a cidadania é fruto de investigação da realidade sócio-histórica e concreta do processo educacional brasileiro, que vem de encontro com “mercoescola” e com todo tipo de opressão às classes populares.


3.2 O conhecimento da educação popular e as manifestações culturais presentes na formação das/os educadores/as populares de Porto Alegre;

O Movimento Aepano , junto a muitos militantes sociais, de forma organizada constituiu-se como alternativa, luta e conquistas na historicidade da educação popular, dentre elas a parceria com instituições de educação para a busca da formação profissional das/os educadoras/es populares. Mas como esta formação vinha se sondo a sonhos, ela não era qualquer formação, era o desejo do “inédito viável” para o além do “componente estético da formação do/a educador/a” (Moacir Gadotti) popular, era o sonho com vida na busca esperançosa pela mudança. Foi o início de uma caminhada de manifestação dos sonhos, lutas, lágrimas, sorrisos, conhecimentos, questionamentos, dúvidas, anseios, mas também de sentir na alma e no compromisso político aquilo que se quer dizer e fazer, ou seja, foi um caminho da não desistência e da não neutralidade da realidade local e global da história das mulheres e homens que fazem à educação social em Porto Alegre..
Foi assim que a AEPPA surgiu da necessidade concreta de direitos até então negados e da luta política contra a opressão, a favor das classes populares e das suas condições de oprimidas (os). A esse movimento, que tem percorrido e que permanece percorrendo em busca dos sonhos possíveis, porque a associação tem em seu papel a construção de projetos, pesquisas, realizações de sonhos e de aprendizados contínuo.
É, portanto, uma luta que leva a realização de sonhos, não qualquer sonho, mas muitos sonhos de amplitude comunitária e de reconhecimento de legitimidade social, político e cultural, onde, faz a cidade de Porto Alegre ser reconhecida pelas lutas em prol de educação de qualidade, e por isso para a AEPPA educação tem sido motivo de constantes movimentos populares, que se constituí pelo movimento a favor de uma educação cidadã que se faz oposição ao clientelismo, a elitização e a mercoescola . No tocante das propostas educacionais, que na maioria das vezes, advindas de formas autoritárias, são na AEPPA, reavaliadas, rediscutidas e reivindicadas pelo povo, ou seja, pelas educadoras/es populares, que buscam a libertação, construindo uma contra proposta, uma vez que, estão organizados de forma participativa para a constituição de sujeitos /as da história educacional de Porto Alegre, se opondo a condição de dominação política imposta pelo poder público, hoje nas esferas municipal e estadual, assim como se referenciou Freire (2000, p.115):

Não posso aceitar calado e 'bem-comportado' que um bilhão de desempregados com quem o século se encerra sejam considerados uma pura fatalidade deste momento. Nenhuma realidade social, histórica, econômica é assim porque está escrito que assim seja.

O processo educacional, que historicamente foi um ato coletivo, porque entende-se aqui a como construção de homens e mulheres, por não ser uma construção individual, tem um horizonte no contexto dos movimentos sociais que por si, tem princípios da educação popular organizada e coletiva, pois quando “a pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se. Mobiliza - se, organiza-se para mudar o mundo”. Este recusar-se a, que se analisa como releitura de mundo e instrumentos de consciência das /os educadoras /es populares da capital gaúcha. O mobilizar-se e o ir à luta nunca foi neutro, pois a educação e a política são indissociáveis, estando ambas nos revelando a impossibilidade da neutralidade e da “apoliticidade” do ato educativo, que de acordo com Freire: “Não há educação sem objetivos, sem finalidades. É isto que, fazendo-a diretiva, não permite sua neutralidade ou a neutralidade do educador” (1991: 119-120).
Se todo o processo educativo tem uma dimensão cultural, política e ética que instrumentaliza a ação do educador/a, por onde responde às necessidades da sociedade, a educação popular não pode se negar o estudo e intervenção na realidade atual, tendo em vista que são estas as dimensões que vão definir a identidade das educadoras/es populares na medida em que se percebe e se constitui como prática que a educação popular não tem visão ingênua. Todavia, o movimento social que luta participadamente a favor da comunidade e da educação de qualidade tem reivindicado por seus direitos. Direitos estes negados e que por vez foi na escolha por duas linhas distintas: opressão ou de libertação, que a AEPPA optou pela libertação consciente de que mudar é possível de forma organizada, que segundo Freire, 1997: “Do ponto de vista crítico, é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto negar o caráter educativo do ato político”.
Ao considerar que a educação popular tem uma natureza de cunho político, Paulo Freire (2001) atribui ao ato educativo a politicidade como indicotomizável a compreensão da historicidade educacional, e é por isso mesmo que compreender este olhar, torna-se um problema social da sociedade neoliberal. A educação serve a alguns interesses que vem a traduzir a realidade da sociedade, porque os interesses políticos, econômicos e sociais estão à mercê das classes populares, onde a educação popular escolheu seu norte, porque nesta escolha há dois caminhos, a saber: educação dominadora ou libertadora, ou seja, educação para a reprodução ou para transformação.
Assim, na capital gaúcha, educadoras/es que trabalham nas instituições comunitárias e que se preocupam com a sua função social na educação pensando constantemente sobre as diferentes “educações” necessitou-se pensar e agir de forma participativa por indicadores que revelassem a historicidade da educação brasileira, onde a alternativa viável e necessária foi à construção de cursos de formação para educadores/as com ênfase na educação popular.
Os cursos educação popular tanto em nível médio como em nível superior é a favor da educação para construção, da educação pela pesquisa, para a fala, para a formação de educadores/as que defendem seus direitos. Ensinar a falar, pesquisar, lutar e construir é uma tarefa pedagógica não só dos partidos políticos, mas também da sociedade civil de um modo geral. Afinal, a educação política das educadoras/es resultou em conquistas participativas.
Neste conhecer e desconhecer, decorrente de reflexão, pesquisa, engajamento, esforços, anseios e dentre outros tantos sentimentos, é que falar, estudar, refletir e pesquisar sobre as ações de formação permanente das Educadoras/es Populares levam a fazer relações com o contexto neoliberal vigente e a realidade de luta e desenvolvimento participativo de consciência democrática das educadoras/es da AEPPA, que juntas/os buscam alternativas para reinvenção das suas onde “ lutar (...)é uma forma possível” (FREIRE, pág.19,2001) de conquistas.
Desta forma, é importante como o conjunto de ações se articula na construção de uma educação popular de qualidade a partir da formação acadêmica de educadoras e educadores populares de Porto Alegre? O que vai mudar na educação pública e que reconhecimento estas educadoras /es populares terão após suas formações? São estes alguns dos questionamentos, que propulsionam a escrita deste tema no presente artigo. São perguntas e problemas a serem desvelados a partir de um estudo sobre o que se tem e o que se pode ter, embasados na história da educação.
No entanto, estas contradições históricas serão objetos de análise deste trabalho, bem como as experiência de novos currículos de cursos para formação de professores/as educadores/as populares de Porto alegre como reconhecimento do saber de experiência de quem faz a educação comunitária, assim como o de combater a lógica da unilateralidade do conteúdismo conservador e inflexível de alguns cursos de formação de professores/as.
A educação popular para quem a faz tem como principio pedagógico - a liberdade consciente e a autonomia responsável que objetivam a formação humana. Nesse sentido, fica a relevância dos movimentos sociais na construção de práticas educativas libertadoras, onde estas ações dialógicas e participativas são diferentes de todas as práticas educativas bancárias e da sociedade capitalista, onde a educação para a opressão grita mais alta, porque este grito, não assusta, ele é silencioso e subordinador, mas presentes nas ações. Entretanto, ao contrário da dominação, está como contraponto, à formação permanente em / para educação popular que deverá possibilitar uma trajetória de educação de qualidade, problematizadora e humanizadora como diz Freire: 1985 pág. 78:
A educação libertadora, problematizadora, já não pode ser o ato de depositar e de narrar, ou de transmitir “conhecimentos” e valores aos educandos, meros pacientes à maneira da educação “bancária, mas um ato “cognoscente”“. (...) Educação problematizadora consiste de caráter autenticamente reflexivo, implica num constante ato de desvelamento da realidade.

Decorrente da desigualdade social e da pobreza nas comunidades que as educadoras/es populares desenvolvem suas ações docentes, neste momento não se trata de ser apenas necessário qualificar o atendimento pedagógico, mas urgente e de direito para todas as pessoas que vivem dessa realidade. Esse desafio deveria ser projeto político da cidade de Porto Alegre, porque é através da luta e de projetos de construção de políticas públicas que a educação comunitária de POA poderá se qualificar em curto prazo, fazendo com que este trabalho de inclusão não fique na história de Porto Alegre como projetos exercidos por educadoras/es que “brincam” de ser professoras/es, ou seja, uma semiprofissão. Contudo, é urgente que as educadoras/es possam transcender da realidade atual para uma realidade do “inédito viável”, em que reconhecendo de sua politicidade, lutar por condições melhores de trabalho seja sentimento coletivo de busca, aonde a coragem ao lado da formação venham ser ferramentas de novas conquistas. A formação e a luta por melhores salários, por exemplo, é mais um instrumento de luta contra a dominação, e a transformação do contexto atual, coloca as/os educadoras/es no dever de posicionarem a favor de condições dignas de trabalho.
Ademais, as organizações sociais, diante um quadro de necessidades especificas da sociedade e das escolas, promovem ações cidadãs, inclusivas e sociais como alternativas ás famílias que não possuem condições de suprir as necessidades de seus filhos e filhas no horário extra-escolar. São nestas atividades que as práticas de inclusão social, vão além das atividades pedagógicas, pois a função social destas instituições tem sido muito mais que suprir as deficiências do Estado para com esta parcela da sociedade. Portanto, diante desse quadro real e emergente, as educadoras/es populares desafiam-se na formação integral destes sujeitos/as, baseando-se em uma pedagogia social/popular desenvolvendo práticas pedagógicas e sociais de cunho libertador, pesquisador e que na prática elas/eles ( educadores /as) aprendem a teoria, mesmo sem muitas vezes conhecê-las.
No entanto, a cotidianidade destas práticas realizadas por mais de duas mil educadoras/es em Porto Alegre, é hoje fato histórico e que grita por melhores condições de trabalho, pois a formação docente e permanente é prioridade, além de que essa formação dever-se-á respeitar e valorizar as experiências profissionais destas educadoras/es, e que por isto mesmo, seja um currículo que norteie e viaje pela realidade contextualizada das comunidades que são atendidas por estas/es educadoras/es populares. Ter um currículo próprio e diversificado que transcenda os muros da escola, bem como das instituições comunitárias deveria ser direito público, porque ir além daquilo que se vê, exige trocas de saberes, diálogo, pesquisa, coragem, participação, ousadia e mudança. Toda essa mudança de atitude pode explicar a pedagogia libertadora, que emancipa as pessoas a partir da educação popular e de um trabalho educativo-social. São por isto que, as experiências da AEPPA são ferramentas de pesquisas, porque são inacabadas e flexíveis, pois para o grupo a pedagogia social é dialética.
Todavia, mudar exige posição e enfrentamento com a realidade educacional, que conforme Freire (1982, p.11) estudar, mudar e criar “implica não somente numa penetração crítica em seu conteúdo básico, mas também numa sensibilidade aguda, numa permanente inquietação intelectual, num estado de predisposição à busca” de reconstruir, mudar, intervir, viver, sentir, fazer e ser.
A esse respeito, um currículo dever-se-á ter como principio uma proposta inovadora, condizente a realidade atual e advinda da demanda social, que forme profissionais da Educação que tenha uma visão do todo e que compreenda a formação como processo inacabado, e por isto, permanente. Para iniciar esta reflexão em busca de um novo currículo nos cursos de formação acadêmica é preciso entender o que se entende por currículo, e é por isso que surgem os estudos de Tomaz Tadeu da Silva , porque em seus escritos ele conseguiu trabalhar aquilo que a educação popular necessita e entende que deve ser currículo.
Tomaz Tadeu trabalha o currículo como poder, ou seja, a “vontade de saber” não pode ser separada da “vontade de poder”. Assim o currículo, segundo Silva , deve estar voltado para o conhecimento transformador, que ele coloca em suas palavras como “Conhecer para governar”. Para a educação popular/social o currículo deve permear pelas diferenças culturais de etnia, raça, gênero e sexualidade, bem como pelas diferentes classes sociais e suas relações em busca da autonomia, podendo ser chamada de auto-gestão. Desta forma, o currículo pode ser entendido como “político cultural ” por ser histórico, visto que este processo deve partir da realidade sócio-histórica que resulta das forças políticas, pedagógicas e sociais da história do povo brasileiro. Trabalhar a partir dessa concepção de currículo é conceber o currículo como meio de emancipação e libertação, pois as experiências de vida são, sem dúvida, instrumentos de investigação.
Para Paulo Freire que critica o currículo existente através do conceito de “educação bancária”, ele é referência para quem atua como educador/a social/popular, porque entender currículo como processo que deve ir além daquilo que se recebe pronto, é ver e sentir a educação como dialética, e, por conseguinte, está em constante movimento e transformação. Nesse contexto, o currículo tradicional está afastado da situação existencial das educadoras/es populares que fazem parte do processo de conhecer, fazer, ser, construir, errar, acertar, desconstruir. Á medida, que se conhece mais sobre o que se faz se percebe que o currículo deve conceber a experiência de quem faz a educação, bem como da comunidade escolar. Este grupo de agentes sociais devem ser os estudos de construção de currículo. É com esta realidade que surgem nossas falas, nosso trabalho, nossos temas significativos ou geradores que deveriam ser entendidos como eixo temático da formação docente e permanente das educadoras/es populares.
Contudo, o meu objetivo é trazer como objeto de estudo e reflexão para o contexto acadêmico um espaço de diálogo e de busca permanente de construção de novos saberes e pesquisa, a partir desta realidade de quem faz a educação popular e está na busca da valorização e qualificação de suas práticas. As experiências são práticas sociais que devem ser contempladas na formação em Educação Popular, seja na Pedagogia ou em outras licenciaturas, para que se concretizem possíveis intervenções e transformações nas instituições comunitárias, bem como também na rede regular e pública de Ensino.
É, pois, através do estudo e pesquisa permeados pelo diálogo, que a consciência de que mudar é possível, que a AEPPA assume o papel de agente social. Esse compromisso está em movimento com compromisso político, ético, social, coletivo em um processo dialético de fazer, refazer, estar, criar, e viverem novas possibilidades de mudança através da demanda por formação docente. Esse assumir é um ato criativo, que segundo Freire (1986, pág.11) deve ser a pretensão de todo o sujeito que está vivo, tendo em vista, que ousar significa tomada de posição e de atitude que vai levar os/as agentes sociais em educação a pensar sobre currículo nos cursos de Pedagogia.
Logo, pensar sobre a importância do dialogo com a educação popular e pública como fatores importantes para um currículo inovador e indissociável da realidade local e global do contexto escolar significa pensar sobre formação docente de modo que deverá ser permanente e desafiadora, que reconheça a prática social e o/a educador/a popular como profissional, a fim de que este se assuma como pesquisador e como uma/um profissional da educação comprometido com uma educação de qualidade. À medida que se promova uma educação transformadora em uma perspectiva da construção de uma educação social/popular que emancipe, liberte, conscientize e respeite as pessoas nas suas diferenças com as condições igualitárias de vida digna, saudável e feliz, também se incorpora a palavra “ Mudança” como tarefa humana de transformação da realidade educacional para “ser mais”, que é segundo Freire. 1994 pág17 : “o desenvolvimento de uma consciência crítica que permite (...) transformar a realidade”, onde esta se faz urgente e necessária.
Nesta caminhada por formação, a AEPPA, supracitada, como experiência em currículo, luta, criação, participação e ousadia, pois ao falar do processo de formação, é palavra única das educadoras/es que dizem que “não é qualquer formação que desejamos”, isso significa que a palavra não pode ter um caráter monológico, porque a palavra é o desejo dialógico do “inédito viável” para o além do “componente estético da formação do/a educador/a” (Moacir Gadotti) popular. Neste contexto sociocultural, a palavra e o desejo são esperanças de quem busca por uma formação que respeite o trabalho da/o educador/a social/popular em todos os aspectos: social, político, cultural e pedagógico.
Desta forma, o/a educador/a popular/social deseja ser reconhecido como profissional sujeito/a de direitos, como por exemplo, a construção de um plano de carreira ou um documento nesta linha, de modo que regulamente esses/as profissionais reconhecendo-os enquanto educadores/as sociais/ populares. Uma vez que, para isto, esses referenciais devem ser contemplados lá na formação inicial e permanente, onde as construções destes processos estejam norteadas pelas relações sociais, que instrumentaliza a libertação e emancipação para o exercício da profissão de forma feliz, respeitosa, saudável e criativa onde o poder público também venha ter sua responsabilidade para com todas as/os educadoras/es sociais.
Assim, mais um desafio o Brasil tem pela frente, que é aprender com quem ensinou embora se saiba que por muitos anos não teve “aprendente” que os enxergasse. Digo que não houve “aprendente”, porque a educação popular tem um olhar da direita que coloca a margem todos/as os/as agentes envolvidos/as neste processo, onde a discriminação é real e clara, porque educador/a popular não é professor, assim dizem por aí. Poderia citar inúmeras situações que comprovam o preconceito existente para com a educação não formal, mas uma das situações é inevitável deixá-la de trazer neste artigo, que é a questão salarial, onde vai refletir nos direitos trabalhistas, na autonomia, na saúde do/a educador/a e naquilo que me propus escrever - Formação docente e valorização profissional.
3.3 Avaliação na Educação Popular

A escola não deve só tornar cada um mais qualificado, mas deve agir para que "cada `cidadão' possa se tornar `governante' e que a sociedade o coloque, ainda que `abstratamente', nas condições gerais de poder fazê-lo; a democracia política tende a fazer coincidir governantes e governados (no sentido de governo com o consentimento de governados), assegurando a cada governado a aprendizagem gratuita das capacidades e da preparação técnica geral necessárias a fim de governar .

Na formação dos/as educadores/as populares em Porto Alegre, e sua historicidade na educação popular o processo educativo tem sido desafios constantes. Os desafios estão presentes no cotidiano das educadoras/es, em que o processo de acompanhar está concomitante a avaliação permanente.
A avaliação do próprio processo educativo é contrária à concepção autoritária e “bancária” de educação, pois no cotidiano das educadores/as que se dizem progressistas, avaliar suas práticas é processo permanente.
Para Michaelis, acompanhar é “Seguir mesma direção”, é expressar a aproximidade e o acompanhamento com um olhar referenciado nas dimensões ética, estética e humana, e, portanto avaliar na formação das educadoras/es está diretamente relacionado ao ato de acompanhar.
Assim, a formação do profissional da educadora/or popular está diretamente relacionada com o enfoque da avaliação, onde a perspectiva está na formação permanente destes/as. Formação e avaliação permanentes devem ser concebidas como ato reflexivo de pesquisa e descoberta, onde a construção teórica não deve estar a favor de uma “mera aprendizagem de novas técnicas, atualização em novas receitas pedagógicas ou aprendizagem das últimas inovações tecnológicas” (Brandão).
A nova formação permanente, inicia-se pela reflexão crítica sobre a prática, e desta forma concebe-se a avaliação como diz Paulo Freire “na formação permanente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática” . Essa reflexão crítica não se limita ao seu cotidiano na sala de aula, pois, transcede as paredes da instituição cujo objetivo é o de conquistar emancipação das pessoas.
Nesse sentido, a Associação de Educadores Populares de Porto Alegre trabalha a importância da troca de experiências entre seus pares, através de relatos de experiências, oficinas, pesquisas, grupos de trabalho na luta em busca da formação permanente das educadoras/es populares
Ser agente protagonista é o desejo das dirigentes da AEPPA quando media o seu trabalho de resgate da autonomia dos seus educadores e educadoras da instituição. Segundo a legislação brasileira , a formação continuada do professor em serviço é um direito, portanto as educadoras/es que trabalham nas instituições comunitárias de Porto Alegre buscam avaliar permanentemente seus papéis na sociedade e os seus direitos como trabalhadores em educação. Contudo, para que esse direito seja exercido na prática, a luta da AEPPA se faz necessárias.
Busca-se uma pedagogia para a educação popular em que a avaliação seja permanente e não é apenas uma pedagogia de resistência sem protagonismo, mas, buscar uma avaliação deste trabalho, na luta por Pedagogia Popular, da esperança, do direito, da alegria e das possibilidades.
Desta forma a concepção de avaliação na formação docente se reflete na própria concepção de educação na medida em que revela a visão de mundo, educação, sociedade e de sujeito da educação que se pretende.
A avaliação na educação popular, Segundo Paulo Freire, é aquela que estimula a consciência crítica e o conhecimento libertador. A percepção de avaliação não pode negar a história das educadoras/es populares e nem mesmo ocultar seus anseios, dificuldades, baixos salários, sonhos e lutas, pois a realidade social e profissional destas trabalhadoras em educação desvela a realidade quando se avalia o resultado dos trabalhos ao longo dos anos.
Para Romão, p.101 a avaliação da aprendizagem é “um tipo de investigação e é, também, um processo de conscientização sobre a ‘primeira cultura’ do educando”, portanto o caráter processual , diagnóstico e questionados a respeito da avaliação é “um processo de mútua educação” ( Romão, p.101). Levando este olhar de Romão para a contextualização da educação popular dentro da AEPPA, avaliar é também diagnosticar a realidade das instituições comunitárias de Porto Alegre.
Freire falava da humanização nas relações que deveria fundamentar-se na “criatividade”, onde estimulasse a “reflexão e a ação verdadeiras” sobre a realidade. A isto chamo de avaliação na educação popular na realidade das educadoras/es populares.
A promoção da transformação criadora é sem dúvida, portanto a inquietação necessária pela busca de reconhecimento das educadoras/es populares, e nesse sentido avaliar permanentemente as práticas cotidianas se faz necessária e urgente, bem como sistematiza-la para que estes momentos possam servir de pesquisa, análise e acompanhamento.

4. O papel de transformação no processo de mudança Educacional e Social e as considerações finais


O homem não pode participar ativamente na história, na sociedade, na transformação da realidade se não ajudado a tomar consciência da realidade e da sua própria capacidade para transformá-la. (...) Ninguém luta contra forças que não entende cuja importância não meça cujas formas e contornos não discirna: (...) isto é verdade se se refere às forças da natureza. isto também é assim nas forças sociais (...). A realidade não pode ser modificada senão quando o homem descobre que é modificável e que ele o pode fazer .


O papel do/a trabalhador/a em educação social no processo de transformação é um ato de reflexão a cerca dos resultados significativos dos movimentos sociais. Neste contexto discute-se a relevância da Associação de Educadores Populares de Porto Alegre onde a sua estrutura física é precária, porem a estrutura social tem representado efetivamente à mudança dos paradigmas educacional, social, cultural e histórico. A saber, um educando/a que vivencia a mudança e transformação da prática pedagógica de sua educadora através da formação inicial e permanente percebe em si mesmo as possibilidades de transformação de sua própria vida, pois este educador/a é oriundo da comunidade local e ter educadores/as estudando é a primeira transformação não somente na estrutura educacional, mas social do país, dado que a educação popular tem como pressuposto “transformar o mundo, sendo o sujeito de sua ação ”, mas transformá-lo conscientemente, porque o/a trabalhador/a social humanista visa uma educação transformadora.
Contudo, lutar por condições justas, humanas, significativas, sociais e transformadoras por uma educação popular também nas Universidades que respeite e valorize os/as profissionais é lutar por formação pedagógica, humana e social. No livro pedagogia da Autonomia, pág. 16, Paulo Freire fala que “Ensinar exige estética e ética”, portanto, a docência, a formação permanente e o engajamento político fazem parte do compromisso social com a educação e com o povo. É fundamental, pensar e construir uma formação universitária que ande de mãos dadas com o contexto social e local em que os espaços educativos estão inseridos, e que permeie por uma formação docente permanente e crítica, em que a dialogicidade seja uma ferramenta de transformação social. Assim, a formação permanente, é momento, também, de reflexão crítica sobre a prática, porque dever-se-á ser democrática e superadora de toda prática de dominação. Nesta formação, vai ser fácil ter a coragem de mudar, enfrentar e revelar-se, porque segundo Freire no livro Pedagogia da Autonomia, pág. 20:

Nenhuma formação docente verdadeira pode fazer-se alheada, de um lado, do exercício da criticidade que implica a promoção da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica, e de outro sem o reconhecimento do valor das emoções, da sensibilidade, da afetividade, da intuição ou adivinhação. Conhecer não é, de fato, adivinhar, mas tem algo que ver, de vez enquanto, com adivinhar, com intuir. O importante, não resta dúvida, é não pararmos satisfeitos ao nível das intuições, mas submetê-las à análise metodicamente rigorosa de nossa curiosidade epistemológica.

A análise que Paulo Freire nos dizia, é aquilo que as educadoras e educadores populares de Porto Alegre tem procurado realizar a cada prática educativa e social, porque são compreendidas por elas e eles que educação e sociedade são temáticas que estão juntas, portanto não há como dissociar uma da outra. Desta forma, é impossível lutar sem amar, sem desejar e acreditar que mudar é possível, difícil, mas que exige compromisso ético, estético, social e político com o povo e para o povo. É nesse sentido, que para estas mulheres e homens que realizam a educação popular desejando uma educação universitária de mudança, ousada, democrática e feliz têm a esperança de que mudar exige participação, sonho e competência. Falando em “Esperança”, remeto para as finalizações deste artigo, o livro Pedagogia da Esperança, que sistematiza toda à caminhada que as educadoras e educadores de Porto Alegre acreditam e seguem a luta idealizada por Freire, pág.11:

E hoje, tanto quanto ontem, contudo possivelmente mais fundamentado hoje do que ontem, estou convencido da importância, da urgência da democratização Formação permanente, cientifica, a que não falte sobretudo o gosto das práticas democráticas, entre as quais de que resulte a ingerência crescente dos educandos e de suas famílias nos destinos da escola.

Logo, a formação inicial e permanente de quem está nas bases é fundamental para quem ousa construir uma educação libertadora a partir da formação em educação popular, onde o eixo norteador é sim uma educação progressista que é direito, onde a AEPPA se constituiu um movimento que luta em prol de uma sociedade mais justa e uma educação de qualidade.Entretanto, a luta das educadoras/es populares da capital gaúcha é a formação técnica universitária ao lado da formação política com “ as marcas do diálogo, da criticidade e da transformação social ”.
Desta forma, a Educação Popular poderá contribuir, segundo relatos das educadoras, nos cursos de formação docente de Pedagogia como disciplinas de abordagem de educação popular/social como parte integrante necessária para a formação do (a) futuro (a) pedagogo (a).
Os diferentes componentes curriculares, como se ouviu nos relatos das educadoras entrevistadas mostraram que a formação docente na área da Pedagogia deve ter um currículo inovador que contemple a realidade educacional porto-alegrense.
O resultado da qualidade das experiências das educadoras que estudaram no IPA, PUC e UERGS deve-se também aos seus respectivos cursos de graduação, ao lado de suas experiências na educação popular. As educadoras (duas) da ULBRA, disseram que seu curso “poderia ter contribuído mais com seus trabalhos se tivesse a educação popular em suas disciplinas”.
Nesse sentido, verificou-se que os cursos de Pedagogia que foram contemplados com componentes curriculares de abordagem da Educação Popular, foram significativos para a formação acadêmica das educadoras e educadores populares, assim como para o trabalho educativo nas organizações comunitárias de POA.
Assim, a história dos trabalhos nos diferentes espaços de atuação educacional destas educadoras populares, hoje pedagogas, pesquisadas foi objeto de estudo que contribuiu para este artigo. Os seus respectivos cursos de Pedagogia nas diferentes instituições, em que analisei reflexivamente os currículos a partir dos históricos escolares das educadoras bem como os relatos individuais, também foram importantes para que eu respondesse a pergunta inicial que me motivou o estudo: “Será que a educação superior está dando as ferramentas necessárias à formação do(a) pedagogo(a) popular para atuar nos processos educacionais e sociais em Porto Alegre?”
A essa pergunta ficou muitas outras perguntas, mas, sobretudo cheguei a conclusão de que na formação de educadores (as), sejam eles/elas populares ou não, se faz necessário a inclusão de disciplinas nos cursos de Pedagogia que abordem a educação popular/social em seus diferentes contextos, porque a falta destas acarreta no percurso profissional das futuras pedagogas(os) que trabalham ou pretendem trabalhar com a educação não-escolar nos princípios da educação popular.

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