EDUCAÇÃO POPULAR E ENSINO SUPERIOR - possíveis relações
Merli Leal Silva
Fernanda Paulo
Roque GRazziola
Resumo.
Este artigo tem como objetivo relacionar dois conceitos que, via de regra, não se conectam - educação popular e ensino superior. A educação popular como opção político-pedagógica cabe em todos os níveis de ensino, uma vez que se concretiza como práxis no mundo e para o mundo pressupondo diversidade e alteridade. A base cultural, a cotidianidade, a prática que se estabelece nas relações sociais, o mosaico de raças, credos, modos de ver o mundo- todos estes elementos mostram a face viva de um currículo de viés epistemológico popular.
Um ensino superior com foco na conscientização do sujeito a partir do conhecimento que vem da vida real pode ser instancia de construção de novas relações frente ao processo ensino e aprendizagem, ampliando possibilidades de inovações curriculares e permitindo que a educação cumpra o seu papel libertador. Cremos ser possível que a educação popular esteja metodologicamente inserida nas propostas de ensino superior, incluindo temas de estudo que tenham como foco a formação para a conscientização, independente de ser bacharelado ou licenciatura.
Palavras-chave: educação popular, ensino superior, Paulo Freire.
"(...) Ao longo das últimas quatro décadas, seus "alunos" foram emergindo da esfera da ingenuidade para a esfera da crítica; da passividade à militância; da dor à esperança; da resignação à utopia. Convencidos pelo senhor de que são igualmente capazes, eles foram progressivamente ocupando espaços na vida política brasileira. Por este novo Brasil, muito obrigado professor Paulo Freire." (Frei Betto.).
Introdução.
Segundo Cunha e Leite (1996), decisões curriculares implicam em definir o que ensinar para quem e para qual propósito. Mas as escolhas feitas não são neutras, elas envolvem poder e controle social e mais, são intencionalmente elaboradas. Os currículos, de uma forma geral, são criados a portas fechadas, por especialistas. A forma de fazer educação, formalizada no texto curricular, crê no saber tradicional, hierarquizado e definido sempre a priori. Uma das características fundamentais de uma educação para a autonomia tem relação com a capacidade de ouvir a comunidade educativa, para construir coletivamente projetos de ensino. Assim, a consciência de classe, a luta por direitos e cidadania é base importante para projetos de ensino emancipadores. Um currículo tem missões ideológicas de grande proporção na educação, principalmente das classes populares.
A educação popular busca como metodologia educativa libertadora, ler, desvelar criticamente a realidade e o mundo e revelar um novo modo de motivar os educandos para uma ação política frente ao conhecimento. Segundo Brandão : Pela primeira vez surge a proposta de uma educação que é popular não porque seu trabalho se dirige a operários e camponeses excluídos prematuramente da escola seriada, mas porque o que ensina vincula-se organicamente com a possibilidade de criação de um saber popular, através da conquista de uma educação de classe, instrumento de uma nova hegemonia.
A educação popular torna-se um espaço de luta constante, onde educadores e educandos, livres e respeitados em sua cultura e diversidade, constroem formas inovadoras de participação no contexto educativo. As possibilidades metodológicas são infinitas, uma vez que a cultura e a identidade do grupo em formação formam a base dos projetos de ensino. Ao incorporar princípios fundamentais da educação popular na concepção de projetos de ensino universitário, estamos construindo um novo perfil de egresso, uma vez que não serão apenas as lógicas capitalistas de formação que nortearão os currículos. A inclusão e exclusão de temas, a forma de avaliar, as estratégias de ensino, tudo carrega a marca da classe hegemônica e são estes valores que a sociedade valoriza e considera. Os meios de comunicação contribuem muito para esta padronização estética de comportamentos, a partir de uma matriz ideológica mercadológica. A sociedade do espetáculo, expressão de Debord, fetichiza e reifica os indivíduos, divulgando uma versão da realidade que serve para a manutenção do poder estabelecido. Reflitamos juntos: a) quantos projetos de graduação possuem uma disciplina de critica da mídia? b) Um médico um psicólogo, um administrador, entre outros, poderiam entender a manipulação midiática e resistir a ela?
Nesse sentido, incluir no currículo de todos os cursos conteúdos emancipatórios e formar mais do que profissionais, formar agentes sociais transformadores parece-nos urgente e necessário. Outro conteúdo fundamental para os currículos de ensino superior relaciona-se às relações sociais de gênero. Se não entendemos como nos tornamos homens e mulheres, como entender a sociedade e a diversidade, as questões raciais, direitos humanos, economia solidária? Os aparelhos ideológicos do Estado e do capital buscam preservar o “status quo”, usando o contexto educativo para legitimar-se e impor o seu poder. Mas se o poder precisa de uma relação para existir, talvez seja possível desconstruir este poder, começando por não estabelecer uma relação com ele.
Como ter uma visão de mundo ampliada e solidária se não tenho consciência política para me rebelar? A assunção de um projeto de ensino superior com uma epistemologia advinda da educação popular teria a marca da diversidade, da autonomia, da solidariedade, do dialógico, do emancipatorio, do ser sujeito e não objeto do conhecimento. Nos projetos de educação popular, os conteúdos são formulados a partir do coletivo, de participação ativa nas definições do que será aprendido-ensinado. Nada pode ser imposto, mas tudo pode e deve ser negociado. A consciência deixa de ser ingênua e passa a ser instrumento de luta, junto com o conhecimento resignificado. Este viés da educação popular como referência para criação de projetos de ensino, poderia de certa forma, resgatar um pouco do desmonte realizado pelos militares no ensino médio. Sem filosofia e sociologia, sem música e a disciplina de historia com rombos na memória, o aluno chegava ao ensino superior sem base crítica. Ainda hoje corremos atrás do atraso educacional de 1964-1985. Na perspectiva da educação popular, o ensino superior deveria ser um espaço não apenas de profissionalização, mas também lugar para ser, no sentido de formar cidadãos para a transformação social. Afinal, o mundo está mais solidário. Menos do que deveria, mas mais do que na década de 90.
A questão social como foco, em hora oportuna, tem como propulsor um esvaziamento do discurso neoliberal,- ninguém mais está disposto a ver o Estado ausente das grandes temáticas mundiais. A partir do FORUM SOCIAL MUNDIAL, no inicio do século XXI, a construção de uma sociedade mais justa e igualitária passou a ser um anseio da humanidade. Novas lógicas de formação social remetem para políticas inclusivas, afirmativas, etc. Este contexto tem espaço para incertezas, ordem, desordem; - um sistema aberto e em mutação.
No estudo realizado por Cunha e Leite (1996) sobre pedagogia universitária, uma questão levantada indica a necessidade de mudança nos projetos de ensino. Tudo que está consubstanciado no currículo foi definido pela academia. Mas, e ai o alerta, devemos compreender que se ele se materializa neste espaço, houve uma arbitrariedade anterior que o define, a qual está atrelada ao poder presente na sociedade. E isto pode ser mudado, no momento em que a comunidade acadêmica estiver consciente desta necessidade. Freire nos ajuda na reflexão.
Quanto mais se problematizam os educandos, como seres no mundo e com o mundo, tanto mais se sentirão desafiados. Tão mais desafiados, quanto mais obrigados a responder ao desafio. Desafiados, compreendem o desafio na própria ação de captá-lo. Mas, precisamente porque captam o desafio como um problema em suas conexões com outros, num plano de totalidade e não como algo petrificado, a compreensão resultante tende a tornar-se crescentemente critica, por isto, cada vez mais desalienada. (Freire, 2005, pg8 0)
Fazer educação popular significa sair de uma visão altamente burocratizada e compartimentada de educação para uma visão sistêmica e totalizante, onde o conhecimento com base na experiência humana não é considerado um conhecimento menor. Na verdade, este conhecimento que vem da cultura e das vivências populares serve de base para a criação dos projetos de ensino inovadores, focados na cultura e na identidade do povo brasileiro. Não estávamos acostumadas a ter em sala de aula tanta diversidade cultural e social. A inclusão no ensino superior chega a partir de ações afirmativas, abrindo espaço ao negro, índio, deficiente e pedindo novas posturas na concepção dos projetos de ensino. A classe popular assume-se como pensadora da cultura e como intelectual, na concepção gramsciana e passa a ser sujeito ativo na busca do conhecimento.
A implantação da educação popular como metodologia pedagógica, requer uma equipe docente e discente preparada para mudanças significativas na forma de ensinar e aprender. A palavra conscientização tem um papel grandioso como pratica de re-ver o mundo e inserir-se nele. Segundo Freire: “A conscientização implica, pois, que ultrapassemos a esfera espontânea de apreensão da realidade, para chegarmos a uma esfera critica na qual a realidade se dá como objeto cognoscível e na qual o homem assume uma posição epistemológica. ( Freire, pg. 26) .
Como atitude crítica no contexto educativo, ser consciente significa abrir mão de um mundo pronto e formatado e buscar um mundo para ser construído na luta cotidiana. Nesta concepção, tudo está para ser feito: metodologias, avaliação, o sistema no seu todo, na relação direta entre consciência-mundo. Tomar posse da realidade não é algo fácil, exige derrubar fronteiras entre os que pensam que sabem e os que pensam que não sabem, - aproximando-os para a busca de algo comum e que os faça livres de concepções pré-concebidas ou culturalmente introjetadas. A educação popular trabalha com a realidade, buscando desvelá-la utopicamente, por vezes, mas de forma crítica sempre. A busca de temáticas significativas para o ensino, a partir de uma pesquisa de palavras geradoras do contexto do educando substituiria a imposição fria e distante de currículos criados em gabinetes pedagógicos. A organização dos conteúdos de ensino, na educação popular, parte do processo de investigação dos temas geradores, elementos da realidade, da cultura dos educandos e da problematizacao destes temas mediados pelo diálogo entre docentes e discentes. Os temas geradores são a espinha dorsal da prática educativa libertadora. Parte-se sempre de uma investigação com as comunidades, com o alunado, das contradições existentes na existência destes sujeitos, de forma concreta. Estas contradições sãotratadas como um problema coletivo e irão exigem reflexão, problematizacao e ação. Esta investigação permite mergulhar no contexto dos educandos, através da convivência amorosa, observadora e sensível com a cultura do grupo em formação. “Num pensar dialético, ação e mundo, mundo e ação, estão intimamente solidários. Mas a ação só é humana quando, mais que um puro fazer, é um quefazer, isto é, quando também não se dicotomiza na reflexão”.
Um currículo é mais do que a configuração formal de um projeto de ensino, ele é também (e quase sempre) espaço de disputa, de inclusão e exclusão. O texto curricular se configura em uma figura prescritiva de normas que hierarquizam o saber e o torna um instrumento de reprodução da ordem social vigente. Mesmo nos projetos de cursos de graduação, com diretrizes curriculares extremamente flexíveis, os gestores pedagógicos optam por grades tradicionais e rígidas, tanto no conteúdo quanto na forma. As formas de ensinar e aprender sofreram muitas mudanças nos últimos anos, mas as práticas escolares derivadas dos currículos são pouco inovadoras. A inovação não vem da tecnologia de ponta, mas de um pensar diferente as relações de aprendizagem. Para Sacristán (1998) o currículo virou um lugar fechado, povoado de especialistas em gabinetes sem janela: “Assim se deu à impressão de que confeccionar um currículo é um oficio de especialistas, como se só eles possuíssem as chaves do que a escola e os professores/as devem fazer. Sob uma linguagem aparentemente científica se ocultam às opções que se tomam”. (1998- pg. 168).
Deixamos de ser consumidores de conteúdos curriculares, para sermos cidadãos ativos e co-responsáveis pelo nosso destino neste mundo. A capacitação das classes populares através da educação popular é realizada através de mobilização intensa, organização forte e esforço concentrado para mudar os rumos da escola, que quase sempre está voltado ao poder hegemônico. Um currículo construído nestas bases deve prever, sem duvida, a esperança concreta de mudança. Ele mesmo, texto curricular, passa a ser uma ferramenta de mudança. Cada docente é um elemento fundamental nesta mudança, a partir de sua ação-reflexão nas aulas. O currículo oculto, enfim desvelado, para que se coloque à prova a forma como o conhecimento oficial é organizado e hierarquizado. O ato da reflexão que origina uma ação transformadora em práxis educativa revolucionária e dialógica, tem como ponto principal uma educação que incluam todos e todas. A dimensão cultural é componente fundamental: o corpo precisa ser acordado, a música precisa ser ouvida, o canto de roda, de trabalho, as lendas e mitos de um povo, as histórias não oficiais, o currículo oculto, enfim, conteúdos significativos de uma produção forte e intensa como o povo brasileiro. Como Paulo Freire escreveu -não podemos nos colocar em uma posição arrogante de professor que pensa lidar com ignorantes, mas um ser humilde, que crê que o saber é sempre relativo e que muitas vezes nossos alunos sabem muito mais que nós algumas coisas. Sem amor não há educação, pois precisamos para amar abrir mão do egoísmo, abrindo-nos a compreender realmente o outro e respeitá-lo na sua diferença, acima de tudo. O propulsor de um projeto de educação popular é uma fé inabalada na mudança social através do real acesso da população menos favorecida a bens culturais e educativos de qualidade. A educação passa a ter caráter permanente, em todos os espaços; onde haja gente consciente, há educação popular. Significa que cada um e cada uma de nós já pode estar fazendo educação popular no seu local de atuação profissional, mesmo que não seja nas comunidades de base. A educação popular dar-se-á onde haja a força de um movimento social ou da reunião de pessoas conscientes do seu papel social e sabedoras dos seus direitos. Nesta perspectiva, o “lócus” da educação popular é o espaço onde haja consciência social, esperança, humildade e força. “Quando um homem compreende sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade e procurar soluções. Assim, pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstancias” (Paulo Freire, Educação e Mudança, RJ, PAZ E TERRA, 1979, PG 30).
Para as classes populares estudar quase nunca é prioridade; o conhecimento torna-se o instrumental para entrar logo no mercado de trabalho e gerar renda. Até porque sabemos que existe a escola para os ricos e a escola para os pobres. Na escola dos pobres o professor fica doente e não tem ninguém para substituir, as aulas terminam 20 minutos antes, falta giz e não tem quadra para jogar futebol. Quando vem o vestibular, provavelmente as condições para entrar em uma federal serão mínimas para quem estudou na escola dos pobres. Enfim, a classe popular vai sozinha abrindo seu caminho para tentar um lugar ao sol.
Para Baudelot (1991- pg. 39) “democratizar o ensino é simplesmente por a escola a serviço do povo, evitando antes de tudo que os trabalhadores não recebam por bagagem escolar inteira subprodutos da instrução reservada aos futuros intelectuais”.
Considerações Finais.
A educação popular ainda não possui o investimento necessário por parte do poder público e há vários equívocos epistemológicos sobre sua origem e seu papel. Talvez pelo fato deste conhecimento e estar atrelado à vida real e na organização dos movimentos socais. É uma educação cheia de vida, com cheiro de terra do assentamento e com a palavra da liderança comunitária na sua organização. É uma educação onde ninguém sabe tudo e todos aprendem juntos, pois cada experiência de vida é valorizada e contextualizada nos planos de ensino. O processo relacional com o alunado também é diferenciado-ouvimos a sua palavra para construir todo o projeto.
Educação popular tem a ver com um saber que liberta, pois estamos sempre aprendendo a fazer educação popular; ela é complexa, rica, ritualística, apaixonante. E também é dogmática, por vezes partidária, nutrindo-se da dialética e do debate constante.
A classe popular urbana, na visão de Nogueira (1991), possui uma relação bastante contraditória com a escola: primeiro a rejeita, reagindo à forma como ela categoriza os sujeitos e os enquadra, por vezes inferiorizando-os socialmente. Este fenômeno ocorre principalmente pelos conteúdos curriculares que usam sempre como referência os saberes da classe dominante. Paradoxalmente, estas mesmas classes cobram seu direito à educação formal de qualidade, reconhecendo-a como fonte legítima de aquisição de conhecimento e instrução, esperando dela promoção social e espaço social qualificado para todos e todas. É direito da classe popular ter espaço político, simbólico e material, mas estas condições não estão dadas. Como a maioria não possui este capital conquistado a priori, cada término de escolarização é uma vitória em relação às estatísticas que mostram que quanto menor a renda, menor acesso à instrução. Na verdade, a escola está cada vez menos atraente e as pessoas continuam não sendo felizes nela, seja em qualquer nível de escolarização. A evasão está cada vez mais atrelada a esta falta de inventividade do espaço escolar e das relações que nele se estabelecem. Uma alternativa possível é: trazer o saber popular para ser fonte das concepções curriculares e inovar nos conteúdos e nas propostas metodológicas. Encerramos a reflexão com Freire (2005):[...] a razão de ser da educação libertadora está no seu impulso inicial conciliador. Dai que tal forma de educação implique a superação da contradição educador-educandos, de tal maneira que se façam ambos, simultaneamente, educadores e educandos. ( Freire, 2005, pg. 67).
Referências Bibliográficas:
Apple, Michel. Educação e Poder. POA, Artes Médicas, 1989.
Freire, Paulo. Pedagogia do Oprimido-RJ, PAZ E TERRA, 2005.
Brandão, Carlos R. O que é educação Popular. SP, Brasiliense, 2006
Nogueira, Maria Alice. Trajetórias Escolares, estratégias culturas e classes sociais. Notas em vista da construção de um objeto de pesquisa, pg. 89. In Dossiê: Sociologia da Educação, Revista Teoria da Educação, POA, Pannonica, 1991.
Baudelot, Christian. A sociologia da educação para quê, Pg. 29. . In Dossiê: Sociologia da Educação, Revista Teoria da Educação, POA, Pannonica, 1991.
Sacristán, Jose Gimeno. Compreender e transformar o ensino. POA, ARTEMED, 1998.
Freire, Paulo; Rosiska, Miguel; Oliveira, Darcy; Ceccon, Claudius. Vivendo e Aprendendo-experiências do IDAC em educação popular. SP, Brasiliense, 1981
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